
Numa casinha de beira de estrada moravam um homem e uma mulher já bem velhinhos.
Eles se chamavam Aurélio e Dita, e não tinham quase nada: um pedaço de terra pedregosa, um pé de goiaba, uma cabra que dava pouco leite e um galinheiro com quatro galinhas.
Das quatro, três botavam ovo direitinho.
A quarta era ruiva, meio emburrada, e não botava nada havia meses. Dita já tinha falado em vender. Aurélio sempre achava um motivo para deixar para a semana seguinte.
A manhã diferente
Numa manhã de inverno, Aurélio foi ao galinheiro antes do sol nascer, como sempre.
Recolheu os três ovos de sempre, já ia saindo, e aí reparou numa coisa esquisita.
Do ninho do fundo, saía luz.
Ele achou que fosse reflexo. Chegou perto, afastou a palha e ficou com a mão parada no ar.
No ninho da galinha ruiva tinha um ovo.
Um ovo de ouro maciço, do tamanho de um ovo normal, pesado como pedra, com a casca lisa brilhando.
Aurélio voltou para casa correndo, tropeçou no degrau e chamou a mulher com uma voz tão esquisita que ela achou que ele tinha se machucado.
O primeiro ano
Com o dinheiro daquele primeiro ovo, eles consertaram o telhado, que vazava fazia sete invernos.
E, na manhã seguinte, tinha outro ovo no ninho.
E no outro dia, outro.
Um ovo por dia, todo santo dia, sempre no mesmo ninho, sempre da mesma galinha ruiva, que continuava emburrada e não ligava a mínima para o alvoroço.
No começo, Aurélio e Dita quase não acreditavam. Depois foram se acostumando, que é uma coisa que acontece com tudo.
Eles compraram uma vaca. Depois duas. Trocaram a cabra velha. Levantaram um muro de pedra em volta do terreno. Compraram roupa nova, panela nova, um relógio de parede que fazia badalada.
E, na frente da casinha velha, começaram a construir uma casa grande.
A pressa
Foi mais ou menos quando a casa grande ficou pela metade que a pressa apareceu.
Começou com uma frase da Dita, no jantar:
— Um ovo por dia demora.
Aurélio levantou os olhos do prato.
— Demora pra quê?
— Pra terminar a casa. Pra comprar o campo do vizinho. — Ela mexeu a sopa. — A gente é velho, Aurélio. A gente não tem tanto dia assim pela frente.
Ele não respondeu naquela noite.
Mas a frase ficou.
E, nas semanas seguintes, os dois foram mudando sem perceber. Acordavam antes do galo, iam direto ao galinheiro e ficavam esperando, olhando para a galinha, batendo o pé no chão.
Um ovo por dia, que no começo era um milagre, tinha virado pouco.
A conta errada
Foi Aurélio quem disse em voz alta primeiro. Numa tarde, olhando a galinha ciscar o terreiro.
— Dita. De onde será que vem o ouro?
— Como assim?
— Ela come milho igual às outras. Bebe a mesma água. — Ele coçou a barba. — Então o ouro tem que estar guardado dentro dela.
Dita parou de descascar a mandioca.
— Deve ter um bocado — continuou ele. — Ela bota um ovo por dia faz quase dois anos. Imagina o tanto que ainda tem lá dentro, esperando pra sair de pouquinho em pouquinho.
Os dois ficaram quietos, cada um fazendo a mesma conta na cabeça.
Era uma conta errada. Mas os dois queriam tanto que ela estivesse certa que nenhum dos dois olhou direito para ela.
A manhã em que acabou
Na manhã seguinte, eles foram ao galinheiro juntos.
A galinha ruiva estava no ninho, quentinha, com o ovo do dia embaixo dela.
Ela levantou a cabeça e olhou para os dois.
E o que aconteceu depois, a história não conta com detalhe, porque não é bonito de contar.
O que se conta é o que veio logo em seguida: os dois velhos sentados no chão de terra do galinheiro, com as mãos vazias.
Porque dentro da galinha não tinha ouro nenhum.
Tinha o que tem dentro de qualquer galinha do mundo.
O ninho vazio
Aurélio e Dita ficaram muito tempo ali, sem falar.
Depois se levantaram, terminaram o dia, e no outro dia acordaram e foram ao galinheiro por costume — e aí lembraram, no meio do caminho, que não tinha mais motivo.
A casa grande ficou pela metade, e ficou assim por muitos anos. O telhado consertado continuou bom, isso continuou. As vacas continuaram dando leite. As outras três galinhas continuaram botando os ovos delas, brancos, comuns, um pouquinho por dia.
E os dois viveram com isso, que aliás era muito mais do que eles tinham antes.
O que a Dita falava
Dizem que, muitos anos depois, quando já era bem velhinha e os netos pediam a história, a Dita contava ela inteira, sem pular a parte feia.
E terminava sempre do mesmo jeito.
— A gente não perdeu a galinha porque era ganancioso — ela dizia. — A gente perdeu porque teve pressa. Ganância é querer mais. Pressa é querer tudo hoje. E tudo hoje ninguém tem.
Aí ela apontava para o galinheiro lá no fundo do quintal, onde as galinhas comuns dormiam empoleiradas, e mandava as crianças irem dormir.
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