Historinhas

O Dragão Corajoso

Ler Historinha Infantil Draco, O Dragão Corajoso

No reino de Mithralia, cercado por montanhas altas demais para qualquer um atravessar a pé, moravam os dragões.

E, entre todos eles, tinha um que era diferente.

Ads

O nome dele era Draco, e ele era pequeno. Pequeno de verdade: quando ele se enrolava para dormir, cabia inteirinho numa poltrona.

Os irmãos e irmãs dele passavam o dia nas cavernas, contando moeda de ouro e empilhando pedra preciosa em montes cada vez maiores.

Draco achava aquilo a coisa mais chata do mundo.

Ads

Ele ficava na boca da caverna, olhando para o outro lado das montanhas, tentando enxergar o que tinha lá.

O pedido ao pai

Um dia, Draco criou coragem e foi falar com o pai.

Draconus era o dragão mais velho de Mithralia. Tinha escama cinzenta, uma cicatriz comprida no focinho e aquele jeito devagar de quem já viu tudo duas vezes.

Ads

— Pai. Eu quero ir.

— Ir aonde?

— Pra fora. Pro outro lado.

Draconus ficou muito tempo calado. Tanto tempo que Draco achou que a resposta era não.

— Você é o menor de todos os meus filhos — disse o velho, por fim.

— Eu sei.

— Lá fora tem coisa que te engole inteiro.

Ads

— Eu sei.

O velho olhou para o filho. E viu, nos olhos dele, uma coisa que ele já tinha visto antes — no espelho, uns quatrocentos anos atrás.

— Então vai — disse Draconus. — E olha pro que você encontrar antes de decidir se é inimigo.

O primeiro voo por cima da montanha

Draco atravessou a serra numa manhã de vento forte.

Ads

Do outro lado, o mundo era maior do que ele conseguia entender.

Tinha rio que brilhava. Tinha floresta que ia até onde a vista alcançava. Tinha estrada com carrocinha andando, e fumaça saindo de chaminé, e gente pequenininha lá embaixo fazendo coisa que ele não sabia o nome.

Ele passou os primeiros dias só olhando.

Ads

Depois começou a descer.

Os amigos

Draco descobriu que era muito mais fácil fazer amizade sendo pequeno.

Um dragão do tamanho de um celeiro chega num vilarejo e todo mundo corre. Um dragão do tamanho de um cachorro grande chega, e as crianças vêm ver.

Foi assim com as fadas, que acharam ele engraçado e ensinaram a ele os nomes das plantas.

Ads

Foi assim com os elfos, que o convidaram para jantar e riram porque ele queimou a sopa sem querer, respirando perto demais.

E foi assim com o unicórnio velho da campina, que não falava quase nada, mas que andou ao lado dele por três dias em silêncio, o que para unicórnio é uma demonstração enorme de amizade.

As coisas difíceis

Não foi tudo bonito.

Numa vila de gnomos, Draco encontrou um troll que descia da montanha toda semana e levava a comida do inverno inteiro.

Ads

Draco não venceu o troll na força, porque ele pesava menos que a mão do troll. Venceu voando em volta da cabeça dele até o bicho ficar tonto, e depois guiando ele até o outro lado do rio, onde tinha comida de sobra e ninguém para roubar.

Noutro dia ele achou um grifo caído no meio da mata, com a asa ferida. Draco ficou quatro dias ali, levando água na boca e caçando para ele, até o bicho conseguir levantar.

E teve o pior de todos: um dragão chamado Vorkath, grande e mal-humorado, que estava queimando as terras vizinhas por puro mau humor.

Draco não conseguiu enfrentar Vorkath sozinho. Ninguém conseguiria.

O que ele fez foi outra coisa: levou uma semana falando com ele. Descobriu que Vorkath queimava tudo porque tinha perdido a caverna dele num desmoronamento e não sabia pedir ajuda.

Draco chamou os gnomos, que são bons em cavar.

Em um mês, Vorkath tinha uma caverna nova e um mau humor bem menor.

A árvore

Numa floresta encantada, Draco conheceu uma árvore chamada Eldertree.

Ela era tão velha que ninguém sabia a idade, e tão grande que a copa fazia sombra numa clareira inteira.

Eldertree não deu conselho. Só fez uma pergunta:

— Você viu o rio de cima?

— Vi.

— E viu que ele tá mais fino do que era?

Draco não tinha visto. Ele voltou a voar, dessa vez olhando para baixo com outro olho, e viu: as clareiras abertas, as queimadas, os trechos onde a mata tinha virado poeira.

Quando ele voltou, prometeu para a árvore que ia cuidar daquilo.

E cumpriu. Passou a levar água nas secas, a avisar quando via fogo começando, a espalhar semente que pegava na escama dele sem ele perceber — isso último ele nem fazia de propósito, mas contava.

Lina

Foi quase no fim da viagem que Draco conheceu Lina.

Ela era uma elfa jovem, de capa curta e um arco maior que ela, e estava procurando um artefato que podia tirar uma maldição da vila dela.

— Você vai comigo? — ela perguntou.

— Vou.

Os dois passaram semanas juntos. Resolveram enigma em porta de pedra, escaparam de armadilha de corredor e enfrentaram um dragão de gelo, que é uma coisa que se enfrenta com paciência, não com fogo: eles esperaram ele cansar.

Acharam o artefato num salão embaixo da terra.

E a vila de Lina acordou no dia seguinte sem a maldição, sem saber direito o que tinha acontecido.

A volta

Depois de muitos meses, Draco voltou para Mithralia.

Ele pousou na boca da caverna com a escama arranhada, uma cicatriz nova na pata e o mesmo tamanho de antes.

Os irmãos e irmãs vieram receber ele. E foi estranho, porque eles pararam a uns passos de distância, meio sem graça, como quem não sabe direito como cumprimentar alguém que voltou diferente.

— E aí? — perguntou o maior deles. — Trouxe tesouro?

Draco pensou.

— Trouxe.

E aí ele sentou na boca da caverna e começou a contar.

Contou do troll, do grifo, do Vorkath, da Eldertree, da Lina, do dragão de gelo, do unicórnio que não falava nada.

Contou a noite inteira. E, quando o sol nasceu, ainda tinha dragão sentado ali, ouvindo.

Depois

Draconus morreu alguns anos depois, velho e satisfeito, e a última coisa que ele disse ao filho mais novo foi que ele tinha feito bem em ir.

E, em Mithralia, mudou uma coisa.

Os dragões continuaram gostando de ouro — isso é dragão, não tem jeito.

Mas começaram a sair.

De vez em quando um deles atravessava a serra, ficava um tempo fora e voltava com história para contar. E aí a caverna enchia, e todo mundo sentava para ouvir, e o monte de moeda lá no fundo ficava ali, brilhando sozinho, sem ninguém prestando atenção nele.

Confira: Baixar Livros em PDF

Rodrigo Pazzini

Formado em letras pela UNIR. Ama a literatura clássica e atua como revisor neste site.

Artigos relacionados

5 Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo