Historinhas

A Cigarra e a Formiga

Ler A Cigarra e a Formiga

No verão, o campo inteiro era um barulho só.

Era o barulho da cigarra.

Ela ficava no tronco do ipê, agarrada com as seis patinhas, e cantava aquele canto comprido e vibrado que atravessa a tarde inteira: ziiiiiiiii. Começava cedo, parava um pouquinho no calor mais forte e voltava com tudo no fim da tarde.

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Quem passava por ali ou reclamava do barulho ou parava para escutar.

A formiga não fazia nem uma coisa nem outra. Ela passava.

O verão

A formiga passava carregando.

Um grão de trigo. Depois outro. Depois um pedaço de folha maior que ela. Depois uma migalha de pão que alguém deixou cair na estrada.

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Ela subia a trilha, entrava no buraco do tronco, descia até o depósito lá no fundo, largava a carga e voltava. E fazia isso do nascer ao pôr do sol, todo santo dia.

Numa tarde, a cigarra parou de cantar e chamou:

— Ei! Vem cá.

A formiga parou com o grão na boca.

— Descansa um pouco — disse a cigarra. — Olha o dia que está fazendo.

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— Eu não posso.

— Por quê?

— Porque o inverno vem.

A cigarra olhou em volta: o sol quente, o capim verde, as flores abertas, o céu sem uma nuvem.

— Falta tanto tempo.

— Falta — disse a formiga. — E depois não falta mais.

E foi embora com o grão.

O canto

O que a formiga não sabia — e nunca perguntou — é que a cigarra também estava trabalhando.

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Só que o trabalho dela era outro.

A cigarra tinha um verão. Um só. Ela tinha passado quase a vida inteira debaixo da terra, no escuro, comendo raiz, esperando. E agora tinha algumas semanas de sol, de asa aberta, de canto.

Então ela cantava. Cantava para chamar, cantava porque era a única coisa que ela sabia fazer, cantava porque o tempo dela era curto e ela sabia disso melhor do que ninguém.

E, enquanto ela cantava, a tarde do campo inteiro ficava mais bonita.

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O sapo cochilava no ritmo. O menino do sítio fazia o dever de casa ouvindo aquilo pela janela. A própria formiga, se fosse honesta, ia admitir que o caminho rendia mais quando tinha música.

Mas ninguém disse isso em voz alta.

O inverno

O frio chegou de um dia para o outro, como sempre chega.

Numa manhã o vento virou, o céu ficou cinza e as folhas do ipê começaram a cair todas ao mesmo tempo.

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Em uma semana, o campo estava pelado. O capim secou. As flores fecharam. O riacho baixou e criou uma casquinha de gelo na beirada.

E ficou um silêncio esquisito, porque, pela primeira vez em meses, não tinha canto nenhum.

A cigarra estava atrás de uma casca de árvore, encolhida, com as asas grudadas no corpo, tentando se esquentar num lugar onde não tinha nada quente.

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Ela aguentou dois dias.

No terceiro, com muito custo, atravessou o campo gelado e bateu na porta do tronco.

A porta

A formiga abriu.

Lá de dentro saiu um vapor morninho e um cheiro de grão guardado.

As duas ficaram se olhando.

— Eu sei o que você vai dizer — falou a cigarra, tremendo. — Que eu cantei o verão inteiro.

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A formiga não disse nada.

— E é verdade. Eu cantei.

A formiga continuou calada, com a mão na porta.

E a cigarra, que já não tinha mais nada a perder, falou o resto:

— Eu não sei juntar grão. Eu nunca aprendi. Eu sei fazer barulho bonito por umas semanas e depois acabar. — Ela abaixou a cabeça. — Foi o que eu fiz.

O que a formiga fez

Dentro do tronco, o depósito estava cheio até o teto. Tinha grão para o inverno inteiro, e ainda ia sobrar.

A formiga tinha trabalhado todos aqueles dias para aquilo.

E ela sabia que, se fechasse a porta, ninguém no campo ia poder falar nada. Era o direito dela.

Ela ficou um tempo parada, pensando nas tardes de trilha, no peso do grão nas costas e naquele ziiiiiiii comprido que fazia o caminho render.

Depois abriu a porta inteira.

— Entra logo, que tá entrando frio.

O inverno de dentro

A cigarra passou o inverno no tronco.

Ela não ficou de graça, que isso ela não queria. Ajudou no que dava: separou grão bom de grão bichado, contou o que tinha, e descobriu que era boa de conta.

E, toda noite, quando as formigas se juntavam no fundo do tronco depois do dia inteiro de trabalho, a cigarra cantava.

Não o canto de verão, que é forte demais para lugar fechado. Um canto baixinho, de asa quase parada, que servia para dormir.

As formigas nunca tinham tido isso.

Na primavera

Quando o frio passou e o primeiro ipê floriu de novo, a cigarra foi embora, como cigarra vai.

Mas, antes de sair, ela parou na porta.

— Obrigada.

A formiga deu de ombros do jeito seco dela.

— No ano que vem você aparece antes do frio. Fica mais fácil pra todo mundo.

— Combinado.

E, naquele verão, o campo teve as duas coisas ao mesmo tempo: o depósito cheio e o barulho bonito.

Que, pensando bem, é o que a gente quer da vida.

Chegamos ao final de mais uma história para dormir. Se quiser ouvir de novo, tem também a historinha da Cigarra e a Formiga por lá. Conte para a gente o que achou nos comentários.

Rodrigo Pazzini

Formado em letras pela UNIR. Ama a literatura clássica e atua como revisor neste site.

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