
Na beira do campo, onde o capim é alto e a trilha de terra corta o mato, morava uma lebre que corria mais que todo mundo.
E ela sabia disso.
Todo dia de manhã, a lebre passava correndo pela trilha e gritava para quem estivesse por perto:
— Bom dia, devagares!
Passava tão rápido que o vento dela levantava a poeira e bagunçava as folhas. Os grilos calavam a boca. Os passarinhos saíam do caminho.
A lebre achava aquilo o máximo.
A tartaruga
No mesmo campo morava uma tartaruga.
Ela se chamava Nita, tinha o casco lascado num canto e andava do jeito que tartaruga anda: um passo, outro passo, pausa para olhar em volta, mais um passo.
Numa manhã, a lebre passou voando pela trilha e, dessa vez, freou de propósito bem na frente dela, levantando um montão de poeira.
— Você não cansa? — perguntou a lebre.
— De quê?
— De ser a coisa mais devagar deste campo inteiro.
Nita esperou a poeira baixar. Depois respondeu, sem pressa nenhuma:
— Eu chego.
A lebre riu tanto que teve que sentar.
— Você chega! — Ela limpou uma lágrima da risada. — Sabe de uma coisa? Vamos apostar uma corrida. Daqui até o pé de ipê lá do outro lado do campo.
E aí aconteceu uma coisa que a lebre não esperava.
— Vamos — disse Nita.
A largada
A notícia correu o campo num piscar de olhos.
No dia seguinte, quando o sol nasceu, tinha bicho para todo lado na beira da trilha. Joaninha, gafanhoto, sapo, um bando de quero-quero, duas capivaras que vieram do rio só para assistir.
O sapo velho ficou de juiz.
— Regra é uma só: sai daqui e chega lá. — Ele coaxou bem alto. — Valendo!
A lebre saiu numa arrancada tão forte que jogou terra para trás.
Em três segundos ela já era um pontinho marrom lá na frente. Em dez segundos, tinha sumido na curva.
Nita deu o primeiro passo.
A plateia ficou em silêncio.
Ela deu o segundo.
Alguém no fundo começou a rir, e o sapo velho mandou calar a boca.
O sono da lebre
Lá na frente, a lebre parou.
Ela olhou para trás e não viu nada. Nem poeira, nem tartaruga, nem sinal de tartaruga.
— Coitada — ela disse. — Isso não é corrida, é humilhação.
Como estava calor e ela estava bem na metade do caminho, a lebre achou justo descansar um pouquinho. Encontrou uma árvore grande, com uma sombra fresquinha e um tapete de folha seca por baixo.
Deitou.
— Um minutinho só — ela disse. — Quando ela aparecer na curva, eu levanto e termino.
A sombra estava boa. O vento estava morno. Uma cigarra cantava longe, naquele barulho comprido que dá sono.
A lebre fechou os olhos.
Um passo de cada vez
Enquanto isso, Nita andava.
Passo. Passo. Pausa para respirar. Passo.
Ela passou pela pedra grande. Depois pelo formigueiro. Depois pelo lugar onde a trilha faz uma curva e sobe um pouquinho — essa parte foi a mais difícil, e ela fez devagar, com o casco balançando de um lado para o outro.
Não correu em nenhum momento. Também não parou.
O sol foi subindo. Depois começou a descer.
Lá pelas tantas, Nita passou por baixo de uma árvore grande, com uma sombra fresquinha e um tapete de folha seca.
Deitada nas folhas, de barriga para cima e com as patas para o alto, a lebre roncava.
Nita parou. Olhou para a lebre por um tempo.
E aí ela fez uma coisa que ninguém no campo esperava.
— Ei — chamou Nita. — Ei, acorda.
A lebre não acordou.
Nita chamou mais duas vezes. Depois deu de ombros do jeito que tartaruga dá — que é quase nada, só um movimentinho do pescoço — e continuou andando.
Porque ela tinha avisado. E porque ela ia chegar.
O pé de ipê
O sol já estava laranja quando os bichos que esperavam no pé de ipê viram alguma coisa se mexendo na trilha.
Primeiro acharam que era uma pedra.
Depois a pedra deu um passo.
E aí o campo inteiro começou a gritar ao mesmo tempo. Gafanhoto pulando, quero-quero fazendo barulho, as capivaras batendo o pé na terra.
Nita atravessou os últimos metros com aquela gritaria toda em cima dela e encostou o casco no tronco do ipê.
O sapo velho anunciou, solene:
— Chegou.
A lebre acorda
Foi a gritaria que acordou a lebre.
Ela abriu os olhos, viu que o sol estava caindo e levou um susto tão grande que pulou de pé.
Correu como nunca tinha corrido na vida. Passou pela curva, pela pedra, pelo capim alto, com as orelhas coladas na cabeça.
Chegou no pé de ipê arfando, com a língua de fora.
E encontrou a tartaruga sentada na sombra, já descansada, conversando com as capivaras.
A lebre não disse nada por um tempo bem comprido.
— Você me chamou? — ela perguntou afinal.
— Chamei três vezes.
— Por que você não me acordou de verdade? Podia ter cutucado, podia ter gritado no meu ouvido…
Nita olhou para ela.
— Eu não queria ganhar de você dormindo. Eu queria ganhar de você andando.
A lebre ficou vermelha até a ponta da orelha.
No fim do dia
Naquela noite, os bichos do campo ficaram até tarde contando a história uns para os outros, cada vez com mais exagero.
E, de manhã, aconteceu uma coisa diferente.
A lebre passou pela trilha correndo, como sempre. Mas, quando chegou perto de Nita, ela diminuiu.
— Bom dia — disse a lebre.
Só isso. Sem apelido.
Nita levantou a cabeça devagar, do jeito dela.
— Bom dia.
E as duas seguiram o caminho, cada uma no seu passo, que é como cada bicho deste mundo tem que seguir.



