Historinhas

A Raposa e as Uvas

Ler A Raposa e as Uvas

Era uma tarde de calor de rachar, dessas em que até a sombra parece quente.

E a raposa estava com sede.

Ela já tinha passado no riacho, e o riacho estava seco. Já tinha passado na poça atrás do curral, e a poça tinha virado lama rachada. Já tinha lambido o orvalho das folhas de manhã, que é pouco e acaba logo.

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Então, quando ela virou a esquina do muro e viu aquilo, quase não acreditou.

A parreira

Em cima de uma armação de madeira velha, no quintal de um sítio, tinha uma parreira.

E, pendurados nela, cachos de uva.

Uvas roxas, gordas, brilhando de tão maduras, com aquela pruína branquinha por cima que a gente vê na uva boa. Algumas já estavam tão cheias que pareciam prestes a estourar.

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A raposa sentiu a boca encher de água.

Ela olhou para os dois lados. Não tinha cachorro. Não tinha gente. Não tinha nada entre ela e as uvas, a não ser um detalhe.

Altura.

Os cachos estavam pendurados bem no alto da armação, uns dois metros acima da cabeça dela.

A primeira tentativa

A raposa recuou uns passos, tomou impulso e pulou.

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Passou longe. Nem chegou perto.

Ela caiu de pé, sacudiu a poeira e olhou em volta, conferindo se alguém tinha visto. Ninguém tinha.

— Foi só para medir — ela disse em voz alta, para si mesma.

Recuou mais. Correu mais rápido. Pulou mais alto.

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Dessa vez a pata dela passou raspando por baixo de uma folha.

— Quase.

As outras vinte e sete

A raposa tentou de novo. E de novo. E de novo.

Tentou pulando de frente. Tentou pulando de lado. Tentou subindo na pedra do muro, que balançou e quase derrubou ela.

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Tentou esticar o corpo todo, ficando nas duas patas de trás, com a língua de fora, o mais perto que ela conseguia chegar de ser alta.

Tentou fingir que não queria e dar um bote de surpresa, o que não funciona com uva, porque uva não foge.

O sol foi descendo. A sombra da parreira foi ficando comprida.

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E a raposa, que tinha começado aquilo cheia de confiança, estava agora com a língua de fora, o pelo cheio de terra, um arranhão na pata e a respiração pesada.

Ela parou.

Ficou um tempo olhando para cima, para os cachos, que continuavam exatamente no mesmo lugar, sem se importar nem um pouquinho.

O que a raposa falou

E aí ela disse aquela frase.

— Ah, deixa pra lá. — Ela virou o focinho para o lado. — Essas uvas estão verdes mesmo.

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Só que as uvas estavam roxas.

Roxas de doer de tão roxas, e a raposa sabia disso, porque ela tinha passado a tarde inteira olhando para elas.

Mas era mais fácil dizer que a uva era ruim do que dizer que ela não tinha alcançado.

E, dizendo isso, a raposa foi embora com o rabo levantado, andando com aquele jeito de quem não perdeu nada.

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O que aconteceu depois

Na parreira do sítio tinha um passarinho que assistiu a tudo, do começo ao fim, de um galho ali perto.

Ele esperou a raposa sumir na curva da estrada.

Depois desceu, comeu três bagos, e ficou pensando na frase que ela tinha inventado.

Achou engraçado. Achou triste também.

Porque, se a raposa tivesse dito só “não alcancei”, o passarinho até que teria uma ideia.

A ideia que ela não ouviu

É que, no fundo do quintal, encostada na parede do galpão, tinha uma escada.

Não uma escada difícil. Uma escadinha de madeira, de cinco degraus, dessas que ficam encostadas para colher fruta.

Ela estava lá o tempo todo, a uns vinte passos da parreira.

A raposa não viu, porque, quando a gente passa a tarde inteira insistindo do mesmo jeito, a gente acaba de olho só no problema e para de olhar em volta.

De noite

Aquela noite caiu quente e cheia de estrela, com cheiro de terra esperando chuva.

A raposa deitou na toca com fome e resmungou mais uma vez, para ninguém:

— Estavam verdes.

E, de tanto repetir, quase acreditou.

Mas, antes de dormir, ela lembrou do brilho daqueles cachos no fim da tarde. E foi dormir com uma pontinha de vontade, que é uma coisa muito mais honesta do que qualquer desculpa.

De manhã, se ela voltasse e olhasse em volta em vez de olhar só para cima, ia achar a escada.

Isso a história não conta.

Mas é bom que a gente saiba que ela estava lá.

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