Historinhas

O Grande Rabanete

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No fundo do quintal de uma casa pequena, um velho plantou uma sementinha de rabanete.

Ele se chamava Seu Firmino, tinha um chapéu de palha furado e falava com as plantas, o que ele achava normal e os vizinhos achavam engraçado.

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— Cresce bonito — ele disse para a sementinha, cobrindo ela de terra. — Sem pressa.

E regou.

O rabanete

O rabanete cresceu.

Cresceu bem, no começo. Depois cresceu demais. Depois cresceu de um jeito que começou a assustar.

Primeiro as folhas passaram do joelho do Seu Firmino. Depois passaram da cintura. Um mês depois, batiam no ombro dele, verdes e largas feito folha de mamona, e a terra em volta do pé estava toda rachada, empurrada de dentro para fora por uma coisa enorme que crescia lá embaixo.

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— Acho que tá na hora — disse Seu Firmino, numa tarde.

Ele cuspiu nas mãos, agarrou o tufo de folhas e puxou.

Uh!

Nada.

Puxou de novo, fincando o pé na terra.

Uuuh!

O rabanete não se mexeu um milímetro.

A fila

Seu Firmino chamou a mulher.

— Ô Zefa! Vem cá me ajudar!

Dona Zefa veio enxugando a mão no avental, olhou o tamanho daquilo e não perguntou nada. Segurou na cintura do marido.

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— No três. Um, dois, três!

Uuuuuuh!

A terra estalou. O rabanete continuou lá.

Então a Dona Zefa chamou a neta, a Bel, que estava desenhando na varanda.

A Bel segurou na cintura da avó.

— Um, dois, três!

Uuuuuuuuh!

Dessa vez apareceu um dedinho de rabanete branco na beirada da terra. Só isso. E os três caíram sentados quando soltaram.

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Mais gente na corda

A Bel chamou o cachorro, o Tufão, que estava dormindo na sombra e não entendeu nada, mas mordeu a barra do vestido dela e puxou, porque cachorro sempre acha que puxar é brincadeira.

Uuuuuuuuuuh!

Apareceu mais um pedaço.

O Tufão latiu para o gato, o Bigode, que estava em cima do muro fingindo que não era com ele.

O gato desceu do muro com toda a má vontade do mundo, olhou para a fila daquela gente ridícula puxando um legume, pensou em ir embora — e ficou, porque gato é curioso, e gato não perde novidade.

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Segurou no rabo do cachorro.

— Um, dois, três!

Uuuuuuuuuuuuh!

A terra gemeu. O rabanete subiu um palmo. E parou de novo.

O ratinho

Foi aí que apareceu o ratinho.

Ele morava no barraco das ferramentas e tinha vindo ver por que estava todo mundo gritando no quintal.

Era pequenininho. Bem pequenininho mesmo, do tamanho de meio dedo.

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— Posso ajudar?

Todo mundo olhou.

O cachorro riu. O gato riu mais ainda. O Seu Firmino, que estava sem fôlego, fez que sim com a mão, mais por educação do que por esperança.

O ratinho foi até o fim da fila e segurou na ponta do rabo do gato.

— No três — disse a Bel. — Um… dois… TRÊS!

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O estalo

E aconteceu.

PLOC.

O rabanete saiu inteiro de dentro da terra, com um barulho de rolha saindo da garrafa, e a fila toda voou para trás e caiu no chão, uma por cima da outra, num monte só de gente, cachorro, gato e ratinho.

Ficou todo mundo estatelado, olhando para cima.

E, de pé no meio do buraco, estava o rabanete: gordo, branco e vermelho, maior que a Bel, com a raiz comprida pingando terra.

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Ninguém falou nada por uns bons segundos.

Depois o Seu Firmino começou a rir. Aí a Dona Zefa riu. Aí a Bel riu tanto que teve que segurar a barriga. O cachorro latia e corria em volta. O gato levantou, sacudiu a poeira e fingiu, como sempre, que nada daquilo tinha acontecido.

A conta

Naquela noite teve sopa de rabanete para a casa inteira, e sobrou para dar aos vizinhos, e ainda sobrou.

Na mesa, a Bel ficou pensando numa coisa.

— Vô. Foi o ratinho que arrancou?

O Seu Firmino mastigou devagar, do jeito que ele fazia quando ia dizer algo que tinha pensado bastante.

— Foi.

— Mas ele é do tamanho do meu dedo!

— Foi ele, sim. — O velho apontou a colher para ela. — Porque, sem ele, a gente não tinha conseguido. Então foi ele.

Ele tomou mais uma colherada.

— Só que, se ele tivesse vindo puxar sozinho, não saía nem em mil anos. Então também não foi só ele.

A Bel ficou olhando para o prato, montando aquilo na cabeça.

Debaixo da mesa

Enquanto isso, embaixo da mesa, o ratinho comia um pedacinho de rabanete que caiu — o pedaço dele, ganho puxando.

O gato estava deitado ali perto, de olho meio aberto.

Os dois se olharam.

E, pela primeira vez na vida, o gato não fez nada.

Naquela noite, a casa inteira dormiu com aquele cansaço bom de quem passou a tarde puxando junto. E, no quintal, o buraco do rabanete ficou lá, enorme, escuro, esperando o Seu Firmino plantar outra coisa de manhã.

Ele já sabia o que ia ser.

Abóbora.

E, dessa vez, ele ia chamar todo mundo antes.

Rodrigo Pazzini

Formado em letras pela UNIR. Ama a literatura clássica e atua como revisor neste site.

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