
No meio da savana, debaixo de uma árvore de copa larga, dormia o maior leão daquelas terras.
Ele se chamava Juba, tinha uma cabeleira cor de mel e uma voz que fazia a terra tremer. Quando ele rugia, as zebras paravam de beber água, os macacos subiam mais alto e até o vento parecia esperar ele terminar.
Todo bicho da savana sabia de uma regra: não se acorda o Juba.
O atalho errado
Naquele fim de tarde, um ratinho chamado Tuim voltava para casa com um grão de milho na boca.
Ele estava atrasado. A mãe dele tinha pedido para voltar antes do escuro, e o sol já estava lá embaixo, laranja, quase encostando no chão.
Então Tuim resolveu cortar caminho pelo capim alto.
Ele correu, desviou de uma pedra, pulou uma raiz, atravessou uma moita e, de repente, o chão ficou macio.
Macio e morno. E peludo.
Tuim parou.
Levantou a cabecinha bem devagar.
Ele estava em cima da pata do leão.
O rugido
Tuim tentou sair andando na ponta dos pés, sem fazer barulho.
Mas as unhas dele fizeram cócega. E a pata se mexeu. E, no segundo seguinte, um olho amarelo enorme se abriu bem na frente dele.
O que veio depois foi o barulho mais assustador que Tuim já tinha ouvido na vida.
RROOOAAAAR.
O capim se deitou todo. Os passarinhos saíram voando das árvores. E uma pata gigante desceu e prendeu Tuim contra o chão, sem esmagar, mas sem deixar espaço nenhum para fugir.
— Você — disse o leão, bem devagar — pisou em mim.
Tuim tentou falar e não saiu nada.
Tentou de novo.
— Foi… foi sem querer, senhor. Eu tava atrasado. Eu tava indo pra casa.
O pedido
O leão levantou a cabeça enorme e olhou aquele bichinho debaixo da pata dele.
— Me dê um motivo pra eu te soltar.
Tuim pensou rápido. E o único motivo que ele achou era muito ruim, mas era o que ele tinha.
— Porque um dia eu posso te ajudar.
O leão ficou parado.
E aí ele começou a rir.
Foi uma risada funda, que sacudiu o peito dele todo e balançou a pata em cima do Tuim, que ficou chacoalhando junto.
— Você? Me ajudar?
— Pode ser que sim.
— Você cabe na minha unha, ratinho.
— Caibo — admitiu Tuim. — Mas eu prometo.
O leão riu mais um pouco. Depois foi parando. Ficou olhando aquele bicho minúsculo, que estava tremendo da cabeça aos pés e mesmo assim não tinha desviado o olhar nem uma vez.
Achou graça. E, porque a risada tinha deixado ele de bom humor, levantou a pata.
— Vai embora antes que eu mude de ideia.
Tuim saiu correndo. Correu tanto que passou direto pela toca e teve que voltar.
A noite da rede
Passaram umas semanas.
Numa noite de lua baixa, quando a savana já estava quieta, Tuim acordou com um barulho estranho vindo da direção da árvore de copa larga.
Não era rugido. Era outra coisa: um barulho abafado, de corda esticando, junto de um som de esforço.
Tuim foi até lá, com o coração aos pulos.
E viu.
Caçadores tinham passado por ali de tarde e armado uma rede grossa entre as árvores. O leão tinha caído nela e estava preso, enrolado, com as patas presas em nós e a juba enfiada no meio das cordas.
Quanto mais ele puxava, mais a rede apertava.
Ele estava tentando rugir, e o rugido saía fraco, porque não sobrava ar.
O nó
Tuim chegou perto.
O leão viu aquele pontinho no capim e reconheceu.
— Sai daqui, ratinho. Eles voltam de manhã.
— Eu sei.
— Você não pode fazer nada.
Tuim subiu na corda.
— Fica quieto, senhor. Se o senhor puxar enquanto eu trabalho, o nó aperta.
E ele começou a roer.
Dente de rato é pequeno, mas é afiado, e não cansa. Tuim escolheu um nó só, o que estava mais esticado, e ficou naquele nó a noite inteira, roendo fio por fio, com a poeira da corda caindo no focinho dele.
O leão ficou parado, respirando fundo, como foi mandado.
Uma hora. Depois duas.
O primeiro fio arrebentou com um estalo. Depois outro.
Quando o céu começou a clarear lá na beirada, o nó grande cedeu de uma vez, e a rede inteira afrouxou.
O leão saiu de dentro dela e ficou de pé, com a juba cheia de folha seca.
De manhã
Os dois ficaram se olhando no meio do capim.
O leão foi o primeiro a falar.
— Eu ri de você.
— Riu.
— Você lembrou disso a noite toda?
Tuim pensou.
— Eu lembrei do senhor ter levantado a pata.
O leão não respondeu nada. Só abaixou a cabeça enorme, encostou o focinho no chão bem devagar, na frente do ratinho, e ficou assim um tempo.
Depois os dois foram embora, cada um para o seu lado, antes de o sol nascer de vez.
Na savana, hoje
Dizem que, desde aquela noite, os ratos da savana atravessam a sombra da árvore de copa larga sem medo nenhum.
E que, quando um bicho grande começa a se achar demais, sempre tem um mais velho por perto que conta essa história.
O leão continuou sendo o maior de todos, e o rugido dele continuou fazendo a terra tremer.
Mas ele nunca mais riu de ninguém por causa do tamanho.



