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O Presente Mágico de Natal

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Em Alegrolândia, o Natal começava cedo.

Já no comecinho de dezembro apareciam as luzes coloridas atravessando as ruas de um poste ao outro. Depois vinham as guirlandas nas portas, o cheiro de bolo saindo das janelas e aquela agitação boa que toma conta de cidade pequena quando tem festa chegando.

E ninguém na cidade gostava mais daquilo do que a Clara.

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Clara tinha oito anos, uma energia que não acabava nunca e uma curiosidade que já tinha metido ela em algumas encrencas. Ela gostava dos presentes, é claro. Mas o que ela gostava mesmo era da outra coisa — aquela que fica no ar e que ninguém consegue explicar direito.

A véspera

Na tarde da véspera de Natal, com a ceia ainda sendo preparada em casa, Clara resolveu dar um passeio.

Foi até a beira da floresta, aquela que começa logo depois da última rua.

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Todo mundo em Alegrolândia contava que, naquela floresta, elfos e duendes trabalhavam feito loucos nessa época do ano, ajudando o Papai Noel a dar conta. Os adultos contavam rindo. As crianças contavam a sério.

Clara era das que contavam a sério.

Ela entrou só um pouquinho, prometendo para si mesma que voltaria antes de escurecer.

Mas escureceu. E foi aí que ela viu a luz.

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A casinha

Era uma luz quentinha, cor de mel, saindo de algum lugar entre os pinheiros.

Clara foi andando naquela direção, pisando na neve fininha, desviando de galho, com o coração batendo forte.

E achou.

No meio de uma clareira tinha uma casinha de madeira do tamanho de um quartinho, com telhado torto, fumaça saindo da chaminé e uma janela redonda derramando luz na neve.

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A porta estava entreaberta.

Clara chegou perto, espiou, e uma voz de dentro disse:

— Pode entrar, Clara. Fecha logo, que tá entrando frio.

O duende

Lá dentro tinha um duende.

Ele era pequeno, de chapéu pontudo torto e barba curta, e estava sentado numa bancada tão cheia de presente, fita e papel que não dava para ver a madeira.

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— Como o senhor sabe o meu nome?

— É o meu trabalho saber nome. — Ele cortou um pedaço de fita com os dentes. — Sou o Duende dos Desejos. Eu estava mesmo esperando você.

Clara ficou sem reação.

— Esperando por quê?

— Porque hoje eu tenho um desejo pra dar, e sobrou pra você. — Ele finalmente olhou para ela, e os olhos dele brilhavam de um jeito esquisito. — Um. Pensa bem.

O que Clara pediu

Clara sentou no banquinho.

Ela pensou em bicicleta. Pensou naquela caixa de tinta de quarenta cores da vitrine. Pensou em pedir mais desejos, que é o que todo mundo pensa e o duende já esperava.

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Mas aí ela lembrou de uma coisa que tinha visto naquela semana.

Lembrou da Dona Alzira, do fim da rua, que morava sozinha e que passava o Natal na varanda olhando a rua enfeitada.

Lembrou do filho do sapateiro, que tinha pedido um livro e ganhou meia dúzia de desculpas.

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Lembrou da mãe dela, que fazia as contas de fim de mês com a testa franzida, igual a todas as mães daquela rua.

— Eu queria — disse Clara, devagar — que todo mundo da cidade ganhasse o presente certo. Não qualquer presente. O certo. Aquele que aquece o coração da pessoa.

O duende parou de embrulhar.

Ele olhou para ela por um tempo comprido, do jeito que gente grande olha para criança quando a criança fala uma coisa que gente grande não esperava.

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— Você tem certeza? Você também está na cidade. Podia ter pedido só pra você.

— Eu tô incluída no “todo mundo” — disse Clara.

O duende riu, bateu palma uma vez só, e a casinha inteira se encheu de presentes brilhando, cada um com um nome escrito na etiqueta.

A manhã de Natal

Na manhã seguinte, Alegrolândia acordou com um alvoroço.

Tinha presente em cada porta da cidade.

O filho do sapateiro achou o livro. A Dona Alzira achou um bilhete convidando ela para almoçar na casa da vizinha — e a vizinha, quando abriu a porta dela, achou um bilhete dizendo que a Dona Alzira ia trazer a sobremesa.

O padeiro ganhou um saco de um fermento raro que ele procurava fazia anos. O menino que só falava de dinossauro ganhou uma pegada de gesso. A professora ganhou um par de sapato que não apertava.

Na porta da casa de Clara tinha um pacote pequeno.

Dentro, um livro de capa dura, cheio de histórias sobre o Natal. E, na primeira página, um bilhete com letra miúda e torta:

A mágica de verdade do Natal é dar e ficar junto de quem a gente ama. Você já sabia. Só faltava alguém te dizer que estava certo. — D.

O ano seguinte

Alegrolândia nunca esqueceu aquele Natal.

E aconteceu uma coisa engraçada no ano seguinte: ninguém esperou duende nenhum.

Em novembro, a rua inteira já estava combinando escondido quem ia dar o quê para quem, e o critério era o mesmo que a Clara tinha inventado — não era dar qualquer coisa, era dar a coisa certa para aquela pessoa.

Deu muito mais trabalho do que comprar presente na pressa.

E foi muito melhor.

Clara, que agora tinha nove anos, passou o mês de dezembro inteiro correndo de casa em casa organizando a bagunça, com o livro de capa dura debaixo do braço.

De vez em quando ela olhava para a floresta, lá no fim da rua.

Nunca mais achou a casinha.

Mas, toda véspera de Natal, ela deixava um pedaço de bolo na janela da cozinha, virado para os pinheiros.

E, toda manhã de Natal, o prato estava vazio.

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Rodrigo Pazzini

Formado em letras pela UNIR. Ama a literatura clássica e atua como revisor neste site.

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