Historinhas

O Pequeno Príncipe

Era uma vez um piloto de avião que voava sozinho por cima do deserto do Saara.

No meio do caminho, o motor do avião fez um barulho feio, tossiu duas vezes e parou.

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O piloto conseguiu pousar na areia. Não se machucou. Mas estava a mil milhas de qualquer cidade, sem ninguém por perto, com água para uns oito dias e um motor quebrado para consertar sozinho.

Naquela primeira noite, ele dormiu na areia, debaixo de um céu tão cheio de estrelas que parecia que alguém tinha derramado um pote de açúcar lá em cima.

Desenha um carneiro para mim

De manhãzinha, uma vozinha acordou o piloto.

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— Por favor… desenha um carneiro para mim?

O piloto deu um pulo. Na frente dele, no meio do deserto, estava um menino pequeno, de cabelo dourado e cachecol comprido, olhando para ele com toda a calma do mundo.

O menino não parecia perdido. Não parecia com fome, nem com sede, nem com medo. Parecia só uma criança que queria muito um carneiro.

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O piloto não sabia desenhar carneiro. Tentou uma vez, e o menino disse que aquele estava doente. Tentou outra, e o menino disse que aquele era um bode, porque tinha chifre. Tentou a terceira, e o menino achou velho demais.

Aí o piloto, sem paciência, desenhou uma caixa com três furinhos e disse:

— O carneiro que você quer está aí dentro.

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E o rosto do menino se iluminou inteiro.

— Era exatamente assim que eu queria!

Foi desse jeito que o piloto conheceu o pequeno príncipe.

Um planeta do tamanho de uma casa

Aos poucos, dia após dia, enquanto o piloto mexia no motor, o menino foi contando de onde tinha vindo.

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Ele morava num planeta tão pequeno que era pouco maior que uma casa. Os astrônomos chamam esse planeta de asteroide B 612.

Lá tinha três vulcões do tamanho de um joelho. Dois ainda soltavam um calorzinho, e o príncipe usava os dois para esquentar o café da manhã. O terceiro estava apagado, mas ele limpava assim mesmo, porque nunca se sabe.

E tinha os baobás.

Baobá é uma árvore gigante. Num planeta tão pequenininho, se a gente deixa um baobá crescer, as raízes furam o chão de um lado a outro e o planeta se parte. Por isso, toda manhã, o príncipe arrancava os brotinhos de baobá enquanto ainda eram pequenos.

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— É uma questão de disciplina — ele explicou ao piloto. — Quando a gente termina de se arrumar de manhã, tem que arrumar o planeta também.

Num planeta assim, dava para ver o pôr do sol quantas vezes quisesse: bastava puxar a cadeira alguns passos para o lado. Um dia, o príncipe viu o sol se pôr quarenta e três vezes seguidas.

— Sabe — ele disse baixinho —, quando a gente está muito triste, gosta de ver o pôr do sol.

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O piloto não perguntou por que ele estava tão triste naquele dia. Achou melhor não.

A rosa

Um dia, no planeta do príncipe, nasceu uma flor diferente de todas as outras.

Ela demorou muitos dias para abrir, escolhendo com cuidado as cores, arrumando pétala por pétala. E, quando finalmente abriu, era a coisa mais bonita que o príncipe já tinha visto.

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Era uma rosa. E ela sabia que era bonita.

A rosa pedia água fresca. Pedia uma redoma de vidro para se proteger do vento. Dizia que tinha medo de tigre, apesar de não ter tigre nenhum no planeta. Contava umas mentirinhas para parecer mais importante.

O príncipe cuidava de tudo. Mas foi ficando confuso e magoado com as manhas dela, e um dia resolveu ir embora.

Na hora da despedida, a rosa não chorou nem reclamou. Só disse, com a voz baixa:

— Eu gosto de você. Você não percebeu, e a culpa foi minha. Seja feliz.

O príncipe partiu assim mesmo. Só muito tempo depois ele entendeu que devia ter prestado atenção no que ela fazia, e não só no que ela dizia. A rosa perfumava e iluminava o planeta dele. As manhas eram só o jeito atrapalhado que ela tinha de pedir carinho.

Os planetas das pessoas grandes

Antes de chegar à Terra, o príncipe visitou seis planetinhas vizinhos. Em cada um morava uma única pessoa grande.

No primeiro morava um rei que achava que mandava em tudo, até nas estrelas, mas que só dava as ordens que já iam acontecer de qualquer jeito.

No segundo morava um vaidoso, que só queria saber de ser aplaudido.

No terceiro morava um homem que bebia para esquecer que tinha vergonha de beber. O príncipe foi embora dali bem confuso.

No quarto morava um homem de negócios que passava o dia inteiro contando estrelas, só para dizer que elas eram dele. Tinha contado mais de quinhentos milhões. Nunca tinha olhado para nenhuma.

No quinto, o menor de todos, morava um acendedor de postes. O planeta dele girava tão rápido que o dia durava um minuto, e ele passava a vida acendendo e apagando o único poste, sem parar para descansar. Foi o único de quem o príncipe gostou, porque pelo menos ele cuidava de uma coisa que não era ele mesmo.

No sexto morava um geógrafo que escrevia livros enormes sobre montanhas e rios, mas nunca tinha saído da escrivaninha para ver nenhum. Foi ele quem disse ao príncipe que as flores são passageiras — que um dia elas acabam.

O príncipe sentiu uma coisa apertar no peito. E pensou, pela primeira vez, na rosa sozinha lá longe, com só quatro espinhos para se defender do mundo.

Foi o geógrafo quem sugeriu que ele visitasse a Terra.

As cinco mil rosas

Na Terra, o príncipe caiu no meio do deserto e a primeira coisa que encontrou foi uma serpente amarela, fininha feito um dedo, que falava por enigmas.

Depois ele andou muito. Atravessou areia, subiu montanha, passou por pedra e neve. Até que chegou num jardim.

E no jardim tinha cinco mil rosas.

Todas iguaizinhas à dele.

O príncipe sentou na grama e chorou. Ele achava que tinha a única rosa do universo, e ela era só uma rosa comum. Achava que tinha um planeta de verdade, e o planeta dele tinha três vulcões do tamanho de um joelho.

— Eu não sou um grande príncipe — ele pensou.

A raposa

Foi aí que apareceu a raposa.

— Vem brincar comigo — pediu o príncipe. — Eu estou tão triste.

— Não posso — disse a raposa. — Eu não sou cativada.

— O que quer dizer cativar?

A raposa explicou que cativar é criar laços. Que, por enquanto, o príncipe era só um menino igual a cem mil outros meninos, e ela era só uma raposa igual a cem mil outras raposas. Um não precisava do outro.

— Mas, se você me cativar, a gente vai precisar um do outro. Você vai ser único no mundo para mim. E eu vou ser única no mundo para você.

Ela contou que não comia pão, e por isso os campos de trigo não lembravam nada a ela. Mas o príncipe tinha cabelo cor de ouro.

— Se você me cativar, o trigo dourado vai me fazer lembrar de você. E eu vou gostar do barulho do vento no trigo.

Então o príncipe foi cativando a raposa, com paciência. Todo dia ele chegava na mesma hora e sentava um pouquinho mais perto.

Quando chegou a hora de ir embora, a raposa ficou triste. Mas disse que tinha valido a pena, por causa da cor do trigo. E pediu que o príncipe voltasse ao jardim para olhar as rosas de novo.

Ele foi. E dessa vez entendeu tudo. Aquelas cinco mil rosas eram bonitas, mas eram vazias. Ninguém tinha regado nenhuma delas, nem colocado redoma, nem escutado suas reclamações. A rosa dele era mais importante que todas elas juntas, porque era a rosa dele.

Na despedida, a raposa contou um segredo.

— Só se enxerga bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.

E completou: foi o tempo que o príncipe dedicou à rosa que fez a rosa dele ficar tão importante. E a gente passa a ser responsável, para sempre, por quem a gente cativa.

O poço no deserto

Quando o príncipe terminou de contar essa história, o piloto estava no oitavo dia no deserto, e a água tinha acabado.

— Vamos procurar um poço — disse o menino.

O piloto achou aquilo uma bobagem. Ninguém acha poço no meio do Saara andando ao acaso. Mas foi assim mesmo, carregando o príncipe no colo quando ele cansou.

E, andando debaixo das estrelas, o piloto entendeu uma coisa: o deserto era bonito porque em algum lugar dele se escondia um poço. E o menino que dormia no colo dele era precioso por causa da rosa que ele guardava dentro do coração, acesa feito uma lamparina.

Ao amanhecer, eles acharam o poço.

A água tinha gosto de festa. Era boa não só por matar a sede, mas por causa da caminhada debaixo das estrelas, do barulho da roldana e do esforço dos braços.

A volta para casa

Nos dias seguintes, o piloto finalmente conseguiu consertar o avião.

O príncipe também tinha resolvido voltar para casa. Fazia um ano que ele tinha chegado à Terra, e a estrela dele ia passar bem em cima daquele mesmo ponto do deserto. Ele estava preocupado com a rosa, sozinha, com só quatro espinhos.

Só que o planeta dele era muito longe, e o corpo era pesado demais para levar numa viagem assim. Então ele ia deixar o corpo para trás, como quem deixa uma casca velha, e ir mais leve.

O piloto não queria que ele fosse. Mas o menino disse uma coisa que ajudou:

— À noite, você vai olhar para o céu. E, como eu vou estar morando numa das estrelas, e vou estar rindo numa delas, vai parecer que todas as estrelas estão rindo para você.

Naquela noite, o príncipe caiu devagar na areia, como cai uma árvore, sem fazer barulho nenhum.

E, no dia seguinte, o piloto não encontrou o corpo dele em lugar nenhum.

Quando você olhar para o céu

O piloto voltou para casa e nunca esqueceu o pequeno príncipe.

De noite, ele gosta de ficar escutando as estrelas. Parecem quinhentos milhões de guizos tocando.

Às vezes ele fica pensando se o carneiro comeu a rosa. Aí lembra que desenhou uma focinheira para o carneiro — mas esqueceu de desenhar a correia. E fica preocupado.

Na maioria das noites, porém, ele acha que não. Acha que o príncipe cuida muito bem dela, que põe a redoma todo fim de tarde e vigia o carneiro.

E então todas as estrelas riem baixinho.

Hoje, antes de fechar os olhos, dá uma espiada no céu. Se você achar uma estrela que parece estar rindo, pode ser a dele.

Boa noite.

Para os pais

O Pequeno Príncipe foi escrito por Antoine de Saint-Exupéry e publicado em 1943. Esta é uma versão curta, recontada para a hora de dormir, que acompanha a história do começo ao fim mas deixa de fora muitos detalhes e quase todos os diálogos do original.

O final pode render perguntas. Vale conversar com calma sobre despedida e saudade, e sobre a ideia da raposa de que a gente fica ligado a quem cuida. Para crianças mais novas, costuma bastar a imagem das estrelas rindo.

Quando a criança pedir mais, a melhor continuação é o livro inteiro. No Livris dá para ler O Pequeno Príncipe completo, com tradução nova feita do francês, direto no navegador ou baixando em PDF e ePub. São 28 capítulos curtos, bons para ler um por noite, e nesse ritmo a história dura quase um mês de hora de dormir.

Rodrigo Pazzini

Formado em letras pela UNIR. Ama a literatura clássica e atua como revisor neste site.

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